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  • Humberto Amadori

SUICÍDIO no idoso: O silêncio depois do silêncio

- ELE SEMPRE FOI TÃO FORTE, disse a filha ao canal de notícias.


Ela havia recém vivenciado uma súbita e inesperada redefinição do valor das coisas e das certezas que (achamos) que temos. Mas seu pai não estava mais lá para confortá-la.

Experimentou dias sem cor e uma ausência mais indesejada do que a mais desconfortável das presenças. Mas seu pai não estava mais lá, para preencher o vazio.

Intranqüila e insone, as horas não só não passavam, como pareciam se repetir. Não percebeu os sinais que seu pai havia demonstrado, lembrava-se bem apenas das diferentes formas que ele usava para afirmar que “EU NÃO QUERO INCOMODAR”.


E, ela, em meio a palavras não-ditas, a angústia do “E se...” e diversas questões que nunca serão respondidas, sente uma delas se sobressair:


- POR QUÊ?

SUICÍDIO NO IDOSO


À primeira vista, o suicídio no idoso soa paradoxal. Afinal, presumimos que por já ter vivenciado e superado muitos percalços da vida, não haveria motivos para tomar atitude tão definitiva.

No entanto, a terceira idade pode reservar inúmeros desafios, tais como:

- Fim da vida profissional;

- Viuvez;

- Falecimento de amigos;

- Dificuldades financeiras;

- Limitações físicas;

- Gastos elevados com saúde e perda da autonomia.


Não é raro o idoso perder o seu poder de decisão no contexto familiar e passar a ser dependente financeiramente dos filhos. Ao perder a voz e o espaço, pode experimentar um comprometimento de seu senso de utilidade e propósito.


Lamentavelmente, o período da vida com maior ocorrência de suicídio é na terceira idade, sobretudo em indivíduos do sexo MASCULINO. Seguem CINCO dados alarmantes:

1) Entre os idosos há uma tendência muito maior de que o suicídio seja um ato previamente planejado, ao invés de impulsivo. Os métodos utilizados geralmente são mais letais;

2) Nos adolescentes, entre cada CEM tentativas, uma termina em morte. Nos idosos, uma em cada QUATRO. Entre homens IDOSOS, uma em cada DUAS;

3) Proporcionalmente, suicídios são mais freqüentes entre idosos com mais de OITENTA ANOS do que naqueles com 60-79 anos.

Um estudo com IDOSOS CENTENÁRIOS sugeriu que o suicídio nesta faixa etária é mais freqüente, proporcionalmente, do que nos idosos mais jovens;

4) Não é só depressão e doença mentais que aumentam o risco de suicídio. Doenças como incontinência urinária e dor crônica também. Um estudo sugeriu que em HOMENS IDOSOS, dor crônica aumenta em DEZ VEZES o risco de suicídio;

5) Idosos relatam desejo de morrer com menos freqüência que os jovens. Mesmo quando questionados ativamente, tem maior chance de minimizar ou negar a ideação suicida.


Desavisadamente, o idoso sofre num silêncio, repleto de desesperança. A sensação de ser um fardo para família, o “não quero incomodar” pode ser uma forma de mascarar um incômodo impossível de suportar.

Assim, valorizemos o sofrimento do outro a todo o tempo. Auxiliemos os idosos a construírem objetivos a longo prazo, cultivar amizades e em suas buscas por um propósito.

A CULPA E ARREPENDIMENTO NÃO TEM EFEITO ANTISUICIDA.

A EMPATIA SIM.


Humberto Amadori - médico geriatra

#geriatria #idoso #depressao #suicidio #prevencao #curitiba


Referências:

Minayo MCS, Cavalcante FG; Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.6 Rio de Janeiro June 2015

American Association of Suicidology. Elder suicide fact sheet. 2014

Int Psychogeriatr. 2014 Oct;26(10):1703-8.

Beck AT, et al. Hopelessness, depression, suicidal ideation, and clinical diagnosis of depression. Suicide Life Threat Behav 1993; 23:139.

Alencar A, Marcelo F, Nascimento AF, Souza MFM. O suicídio no Brasil. In: Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Brasil 2006

Psychiatr Clin North Am. Conwell et al.; 2012 June 1.

Psychiatr Clin North Am. 2008 June ; 31(2): 333–356

Arch Intern Med. 2004; 164:1179-1184

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